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João Pacheco Matos

joaopmatos@hotmail.com

Que pobre, rico mundial

Na passada semana andei a ouvir música por algumas das festas da Bairrada: a Feira da Vinha e do Vinho, a ExpoBairrada e o MeaJazz no Luso. Cada uma com o seu estilo, propósito e ambiente próprio.

Devo dizer que fiquei encantado com o que vi e ouvi no MeaJazz: o cenário do Lago de Luso é incrivelmente agradável, estava uma noite ótima e ouviu-se muito boa música, culminando com um memorável concerto de Frankie Chavez. Parabéns – com agradecimento – à Câmara Municipal da Mealhada pela organização deste festival. Pela qualidade. Pela longevidade (fará 10 anos para o ano). E por fazer diferente, em bom. Lá estarei para o ano, com a família.

De notar a presença da Rota da Bairrada com um espaço bonito e bem enquadrado, disponibilizando vinho a copo. Boa
combinação, espumante e música.

Agora que o mundial de futebol já acabou para nós e está a acabar para os outros, deixo algumas reflexões breves.

Devo ressalvar que, apesar de não perder um jogo no meu lugar em Alvalade, cada vez gosto menos de futebol como jogo, espetáculo e valor desportivo – e cada vez acompanho mais rugby.

Porém, não foi por isso que nunca vi tão poucos jogos nem nunca estive tão alheado dum campeonato mundial como este ano.

Primeiro tinha uma baixíssima expectativa futebolística para a seleção nacional, bem como a tristeza de ver Ronaldo a trair-se a si próprio – tão
portuguesa, esta incapacidade de sair a tempo, como aconteceu com Amália, Eusébio ou
Soares.

Depois perceber que a FIFA de Infantino – que sempre foi uma organização mafiosa assente num “sistema de regras sem regras”, como lhe chamou Poiares Maduro – já nem tenta disfarçar como fazia no tempo de Havelange e Blatter.

A bajulação a Trump, o prémio da paz FIFA, as limitações e proibições impostas à seleção do Irão e a um árbitro somali, a ameaça do ICE perseguir adeptos às portas dos estádios, tudo isto arrepia e enoja.

Os bilhetes caríssimos, pela implementação do sistema de preços dinâmicos (como acontece nos voos das low cost) e a legalização da candonga através do site da própria FIFA (que fica com a respetiva comissão, claro) parece o enredo dum filme de Scorsese sobre a mafia de Chicago.

A farsa – de que Portugal infelizmente é cúmplice – desta organização dum campeonato em três países da América do Norte e Central e do próximo em 2030 noutros três países (Europa e África), com 3 jogos na América do Sul (os inaugurais da Argentina, Paraguai e Uruguai), para permitir que a Arábia Saudita continue a lavar a sua imagem e organize o campeonato de 2034, o segundo na península arábica em 12 anos, contra as regras da própria FIFA.

E ainda tivemos a intervenção de Trump a mandar a FIFA retirar uma suspensão a um jogador americano. Nem os argumentistas de Black Mirror se lembrariam de tal.

Uma última nota para as viagens de Montenegro aos jogos da seleção. A ideia de que o primeiro-ministro foi representar o povo português, é ridícula, não há outra forma de pôr a coisa. Não pelo dinheiro (e não é tão barato quanto isso) e nem por ser necessário por cá (se não é…). É mesmo pelo princípio. Lamento, mas aqueles rapazes não representam mais Portugal, do que os alunos do secundário que vão às Olimpíadas Internacionais de Matemática. Não, a seleção nacional não representa Portugal. Quanto muito, representa os jogadores portugueses. E se Costa fez o mesmo, mais uma razão para não repetir. Ou começo a ver um padrão?