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Armando Humberto Pinto

Professor Catedrático da Universidade de Aveiro

O desespero que é a CP

Andar de comboio hoje em Portugal é como jogar na raspadinha. Atrasos, supressões, avarias, ligações perdidas e falta de informação transformam uma simples viagem numa verdadeira prova de resistência à nossa paciência.

Portugal tem grande parte da sua população concentrada no litoral. As principais cidades do litoral estão interligadas por uma linha ferroviária. Os comboios rápidos, Alfa Pendular e Intercidades, asseguram as ligações de longa distância, enquanto os regionais e urbanos aproximam as pequenas localidades dos grandes centros. É um modelo racional, confortável e amigo do ambiente.

Quem sai de Oliveira do Bairro pode apanhar um comboio até Coimbra, esperar apenas cinco minutos e seguir de Alfa Pendular para Lisboa. Em menos de duas horas e meia chega a Lisboa. Pelo caminho pode trabalhar, utilizar a internet, tomar um café ou simplesmente descansar. Tudo está bem pensado. Os horários encaixam, as ligações fazem sentido e os comboios deveriam oferecer boas condições.

O problema é que tudo isto só funciona no papel. Os atrasos tornaram-se tão frequentes que perder uma ligação deixou de ser um azar para passar a ser uma expectativa. O resultado é simples: o comboio deixou de ser um meio de transporte em que se possa confiar.

Não tenho nada contra a alta velocidade. Pelo contrário, poderá ser uma infraestrutura importante para o futuro do país. Mas convém não confundir prioridades. Antes de investir milhares de milhões em novas linhas, seria sensato garantir que a rede atual funciona com a fiabilidade que os portugueses têm o direito de exigir.

A alta velocidade é particularmente competitiva quando substitui o avião em percursos como Paris-Bruxelas ou Paris-Londres. Mas essa não é a realidade da maioria dos portugueses. Quando precisamos de ir a Aveiro, a Coimbra, ao Porto ou a Lisboa, a escolha não é entre o avião e o comboio; é entre o carro e o comboio. E, infelizmente, somos muitas vezes empurrados para o automóvel: é mais caro, menos seguro, menos sustentável e, ainda assim, consegue ser mais previsível do que o comboio. Como diria o saudoso Fernando Pessa: “E esta, hein?”

Entretanto, as empresas de autocarros conseguiram construir uma oferta moderna, confortável, pontual e a preços muito competitivos. Demonstraram que é possível prestar um bom serviço de transporte público quando existe organização e gestão eficiente.

Por isso custa perceber algumas decisões do Estado. Em vez de resolver os problemas estruturais da ferrovia, lançou um “Passe Verde” que aumentou a procura sobre um sistema já saturado e criou concorrência desnecessária a operadores que estavam a prestar um serviço de qualidade.

Os portugueses não pedem milagres. Pedem apenas que o horário deixe de ser uma sugestão e volte a ser um compromisso. Porque um país moderno também se mede pela capacidade de fazer funcionar aquilo que já tem.