Há 37 anos que a Sociedade São Vicente de Paulo entra, discretamente, na vida de dezenas de famílias em Oliveira do Bairro.
Instalada provisoriamente numa sala cedida pela Junta de Freguesia, na antiga escola primária de Oliveira do Bairro, a também conhecida como “Conferência Vicentina” continua a cumprir a mesma missão: bater à porta de quem mais precisa.
À frente desta missão revestida de dignidade e de esperança está Milena Vicente dos Santos. O nome da recentemente eleita presidente das “Vicentinas” parece quase destino: Vicente, como São Vicente de Paulo, patrono dos pobres. Ao longo da conversa, a lágrima escapa, porque Milena Vicente dos Santos não conhece só os rostos, conhece os lares e histórias de vidas sofridas, falando dos “nossos pobres” com um carinho quase maternal. “Lidamos com situações muito delicadas. Há muita carência”, confessa.
A Conferência Vicentina apoia atualmente 105 pessoas, distribuídas por 36 famílias da freguesia de Oliveira do Bairro. São números oficiais, registados junto do Banco Alimentar de Aveiro, que cruza os dados para garantir transparência e evitar duplicações de apoio. Mas os números, por si só, não contam a verdadeira história. “Entramos na casa das pessoas e apercebemo-nos da sua realidade. Alguns não nos dão logo essa abertura, por vergonha, mas com o tempo ganhamos essa confiança”, explica Milena. “Nós damos conforto ao estômago, mas também muito colo aos corações.”
A maior parte das famílias apoiadas trabalha, muitas têm dois ou mais filhos, algumas mais do que um emprego, mas os salários, ainda assim, não chegam para tudo. A crise da habitação empurra as famílias para uma escolha cruel: pagar a renda ou colocar comida na mesa. “É uma realidade que nos comove muito”, admite a responsável.
Entre os apoiados, há sobretudo famílias – portuguesas, africanas, brasileiras, venezuelanas… – mas também pessoas a viver sozinhas, neste caso sobretudo homens entre os 66 e os 75 anos. Por isso, na Conferência nunca podem faltar bens essenciais: arroz, massa, leite e cereais para as crianças.
Mas o apoio vai além dos cabazes alimentares distribuídos mensalmente, sempre ao domicílio e por duas confrades, numa prática de proximidade e transparência. A associação entrega também roupa, calçado, roupa de cama, eletrodomésticos e mobiliário em boas condições. E, por vezes, paga contas da água ou da luz para evitar cortes. Quando questionada se esse dinheiro é devolvido, Milena sorri: “É emprestadado.”
A Sociedade São Vicente de Paulo vive muito da solidariedade da comunidade. Recebe alimentos do Banco Alimentar três vezes por ano, mas nem sempre chega. Conta também com o apoio da Câmara Municipal, através de uma verba anual de 1500 euros.
Há uma rede local de apoio que Milena faz questão de destacar: Câmara, Junta de Freguesia, Agrupamento de Escolas de Oliveira do Bairro, paróquia, Rotary Clube de Oliveira do Bairro e outras associações. “A rede funciona bem. Se tivéssemos mais verbas, mais apoios, poderíamos chegar ainda mais longe”, sublinha.
Muitos casos chegam através da escola ou da catequese. Outros são sinalizados pela Ação Social da Câmara. Apesar de ser um movimento católico, a Conferência não olha a religião, raça ou nacionalidade. “Qualquer pessoa que entre aqui nunca sai de mãos vazias.”
Atualmente, a Conferência conta com 11 confrades, três delas honorárias. Mulheres que, de forma voluntária e discreta, se dedicam a esta missão. “São pessoas muito sábias, justas e corretas. Tenho muito a aprender com elas.”
Reúnem quinzenalmente. Partilham preocupações, organizam apoios e, acima de tudo, guardam sigilo absoluto sobre tudo o que conhecem. “As pessoas são pobres, mas não são miseráveis. Temos de nos importar, em primeira instância, com a sua dignidade.” A frase resume tudo. Talvez por isso Milena repita, quase como um lema, uma ideia simples, mas profundamente poderosa: “A caridade não está nos livros nem nos gabinetes, mas sim no terreno, nos nossos gestos e ações.”
E é nesse terreno, muitas vezes invisível aos olhos da sociedade, que a Conferência Vicentina continua a ser retaguarda… acabando tantas vezes por ser a primeira linha para quem já não sabe a quem recorrer.
No próximo fim de semana, dias 30 e 31 de maio, realiza-se mais um peditório do Banco Alimentar nos hipermercados da freguesia, iniciativa organizada localmente pelo Rotary Clube de Oliveira do Bairro, do qual a Conferência Vicentina é parceira (ficando responsável por um dia deste peditório). O apelo que deixa Milena Vicente é simples: ser generoso. Porque a verdadeira caridade, realça, “começa quando conseguimos colocar-nos no lugar do outro”.

