Quando o Jornal da Bairrada saiu para a rua pela primeira vez, há 75 anos, já a “Casa Valério” calçava gerações. No número inaugural do jornal, lá estava a publicidade da Sapataria Valério, em Bustos. Sete décadas e meia depois, o negócio continua de portas abertas, sustentado pelos princípios de sempre: qualidade, conhecimento do produto e relação direta com o cliente.
A história começa bem antes de 1951. Foi há mais de 90 anos que os pais de Alice Costa deram início ao negócio da sapataria. A ligação ao ofício vinha ainda de trás: o seu avô era sapateiro. Alice começou cedo, muito cedo. “Comecei a trabalhar com 10 anos. Fui vender sapatos com os meus pais para as feiras”, recorda, com a naturalidade de quem nunca conheceu outra vida. Casou com apenas 16 anos e nunca deixou os sapatos. “Não sei fazer mais nada: é cozinhar e estar aqui”, diz, apontando para a loja que é, há décadas, extensão da sua própria casa.
Durante muitos anos, a vida fez-se na estrada e nas feiras. Águeda, ao sábado, era “uma feira grandiosa”. Oliveira do Bairro, Palhaça, Bustos, Almas da Areosa, Oliveirinha, Portomar, Vista Alegre – a lista é longa e desenha um mapa da região onde a “Casa” Valério construiu nome e clientela. Alice andou cerca de 15 anos nas feiras com o pai; depois, continuou com o marido, Adélio Costa, com quem trabalha lado a lado até hoje.
Adélio, do alto dos seus 90 anos, é o homem dos números. “Não falha nada!”, garante, com graça mas sem perder o ar sério. Ela, com 82, continua a ser a cara da sapataria, conhecida por muitos simplesmente como “a Casa Valério”. Têm apenas uma filha, professora, e vaticinam, “o negócio morrerá connosco”. A constatação é feita sem dramatismo, mas com a consciência de quem sabe que representa uma forma de comércio cada vez mais rara.
A Sapataria Valério vende sapatos – “e cintos!” – de qualidade, tudo em pele, para homem, mulher e criança. Trabalha diretamente com fábricas de São João da Madeira e Guimarães e é representante da marca Camport. “Nós compramos diretamente de fábrica, não compramos em armazenistas”, sublinha Alice Costa, explicando uma das chaves da credibilidade construída ao longo de décadas.
Quando se fala de publicidade, a memória recua ao primeiro número do Jornal da Bairrada. “Naquele tempo, fazer publicidade era muito importante”, recorda. Hoje, acredita que continua a fazer efeito, mas destaca outra força maior: “a publicidade do ‘boca a boca’”. A clientela fiel acompanha a casa há muitos anos, mas continuam a entrar clientes novos, atraídos pela reputação da qualidade e do atendimento.
Assinantes do Jornal da Bairrada há muitos anos, Alice Costa não poupa elogios: “O jornal é cinco estrelas. Leio tudo, ou quase tudo o que lá vem – notícias, fotografias… tem muita importância, traz coisas que têm muito interesse.” Já não fazem publicidade no jornal, mas a ligação mantém-se de outra forma. “Eu é que faço muitas vezes publicidade ao Jornal da Bairrada”, conta, de forma genuína. “Quando alguém compra um par de sapatos ou botas e precisa de ir ao sapateiro, digo sempre: é ali ao pé do Jornal da Bairrada! Estou sempre a falar de vocês!”
Tal como o jornal, a Sapataria Valério resistiu ao tempo, às mudanças de hábitos e às modas rápidas. Setenta e cinco anos depois daquela primeira página, continua a provar que, quando há qualidade, conhecimento e confiança, o comércio local também faz história.
Tudo tem um começo
Francisco Ferreira (avô de Alice Costa), também conhecido por Chico Sapateiro, foi acolhido pelo Asilo de Aveiro, onde fez a sua aprendizagem escolar e profissional. Casou e construiu casa em Bustos. A oficina e a sala de visitas compunham a frente do rés-do-chão.
Chico Sapateiro foi admitindo alguns aprendizes, entre os quais o pai de Alice. Dominando os segredos da manufatura do calçado, José Valério Ferreira atingiu a categoria de mestre.
“Era reconhecida a destreza com que o meu pai resolvia situações de calçado ortopédico. Quantas vezes deu indicações a fabricantes sobre as medidas das formas para proporcionar maior comodidade aos pés. Distinguia com relativa facilidade as qualidades dos curtumes vindos de Alcanena a utilizar na manufatura dos sapatos.”
Em 1939, no espaço-oficina já existia uma pequena mostra de sapatos. Nesse tempo, a maior parte da atividade centrava-se na produção da “bota-grossa”, usada no trabalho das obras de construção e no campo. Pouco tempo era reservado aos consertos.
Entretanto, “o meu pai casou com Idalina da Silva Micâelo, da Póvoa de Bustos, modista, com algumas costureiras e aprendizes”. Com o casamento, “a minha mãe deixou de exercer a sua atividade e o meu pai passou a ser o proprietário da sapataria”.
É deste tempo a instalação do telefone, n.º 25, e a colocação do painel-reclamo com o grafismo azul “SAPATARIA VALÉRIO”, feito na Fábrica Aleluia, em Aveiro, e colocado numa parede lateral da casa (que ainda hoje se mantém).
“Esta profissão é de amor à arte”
A qualidade dos produtos e o design sempre atualizado fizeram aumentar o número de clientes na Sapataria Valério, muitos vindos das zonas de Águeda, Aveiro e Coimbra. Aqui, encontravam calçado de grande qualidade a preços mais acessíveis, sendo muitas vezes as mesmas marcas das lojas da cidade.
O crescimento das vendas levou a entregas semanais e, por vezes, diárias, nomeadamente no caso de calçado feito por medida. A sapataria sempre respondeu, e continua a responder, a pedidos de calçado por medida, em especial correções ortopédicas para crianças, em fábricas conceituadas de São João da Madeira e Santa Maria da Feira.
A experiência de muitos anos e o gosto pelo calçado deram a Alice Costa um olhar treinado: “basta observar os pés dos clientes para perceber qual o modelo que melhor se ajusta”.
A Sapataria Valério continua de porta aberta, com um volume de negócio mais reduzido, mas que permite a Alice e a Adélio Costa manterem-se ativos. “Esta profissão é de amor à arte. Sinto-me feliz com o que faço e gosto muito de contactar com as pessoas. Conheço os avós, os pais, os netos e já os bisnetos. E assim gostaria de continuar até ao fim”, remata Alice Costa.

