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Jorge Mendonça

Oliveirense

A coragem de ser imperfeito

Muitos só conheceram António Lobo Antunes (ALA) como criador de escrita.
Mas antes disso, foi médico psiquiatra, profissão em que conheceu o que de mais misterioso existe dentro de nós tendo recolhido, entre anamneses e diagnósticos, fragmentos da condição humana que mais tarde transformou numa literatura áspera da verdade, feita de vozes sobrepostas, de memórias partidas, de frases que sobrevivem como corpos cansados.

Em certa altura, ALA deixou a psiquiatria e entregou-se por inteiro à escrita, e com ele aprendemos que a língua portuguesa pode conter dentro de si a guerra, a infância, o amor, a loucura e a melancolia de um país inteiro.

A sua formação académica e experiência clínica, associadas ao contacto com a mente humana, marcariam profundamente sua obra, aparecendo nos seus livros com uma intensidade quase cirúrgica.
Outro elemento decisivo foi a participação na guerra colonial portuguesa em Angola, experiência que atravessa muitos de seus textos e ajuda a explicar o tom inquieto e por vezes brutal da sua escrita.

Genuinidade, inteligência e sabedoria eram a marca da sua escrita. «Não quero magoar. É claro que me agradaria escrever um livro sobre políticos. Também não seria difícil, mas são tão reles que me enojam. Tinha de tomar banho após escrever. Não consigo conceber uma pessoa que toma decisões irrevogáveis e que não as cumpre.»

Numa entrevista que deu à jornalista Fátima Campos Ferreira, da RTP, em 23.01.2015 ALA disse mais ou menos isto: «Eu tenho uma grande admiração pelo Tony Carreira, do qual a única coisa que conheço é uma entrevista que vinha numa revista da SPA. O homem foi muito pequenino para França, e quando lhe perguntaram porque que você não se naturalizou francês, que tinha sido mais fácil. E ele disse: Eu? Nem pensar! Somos só 10 milhões, não é para qualquer um! E realmente não é para qualquer um. Eu nunca o ouvi cantar, não conheço nem uma cantiga dele, mas só por isto… Isto é uma resposta espantosa. O tipo tem razão. Somos só 10 milhões, não é para qualquer um!»
Não obstante a sua elevada dimensão cultural, influenciadora de várias gerações de escritores, ALA era visto como um homem complexo, inseguro e, por vezes, brutal na sua franqueza.

É disso exemplo o que se extrai de uma entrevista de ALA Lobo Antunes publicada na revista Visão, em janeiro de 2004:
«Visão (V): Ainda sonha com a guerra?
António Lobo Antunes (ALA): […] Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protetor da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem-nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

V: Não vou pôr isso na entrevista…
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?»
Quem procura a perfeição em cada minuto da vida, entra num ciclo de frustração e corre atrás de uma ilusão; aceitar sua imperfeição, um ato de coragem.
A seu pedido foi tocado e cantado no seu funeral, o hino do seu clube.
Talvez não vá para o céu, que é azul, mas os oportunistas políticos que o enojavam, tudo farão para que venha a repousar no Panteão Nacional.