Assine já

Manuel Armando

Padre

O flagelo comum: – a guerra

Não é fácil, por todas as razões, falar-se de guerra. É uma realidade que arrasta consigo e para todos os povos a infelicidade do sofrimento, angústia, desespero, morte. Tudo, neste ambiente, é destruição de quaisquer valores económicos, políticos, materiais, morais, religiosos, humanos.

Parece não prevalecer pedra sobre pedra se avaliarmos tudo quanto se passa diante de nós ou assusta os nossos ouvidos.

Nada nem ninguém está seguro e teremos sempre a tentação de olhar de soslaio a vida e o próximo que é igual a nós.

A inteligência criada para a construção do Homem acaba por ser fazedora dos pensamentos e instrumentos que separam os indivíduos, uns dos outros, movidos por ambições desmesuradas do ter e poder.

Muitos se alcandoram, como senhores dominadores do mundo inteiro e seus bens. O olhar que deveria atingir, em ação de graças, tudo quanto é bom e fulcro de união universal, transvia-se, por desvairamento egoísta, destruindo aquilo que deveria produzir a união e a compreensão de todos os seres que somos nós.

Desde pequenito, ouvi sempre falar de guerra e até nasci no ambiente pesado de ruído da Segunda Guerra Mundial, sendo assim embalado ao som dos morteiros, durante os três primeiros anos de vida.

Logo quase nos primeiros tempos de escola, entrámos a estudar História e a descrição das batalhas travadas neste torrão pátrio.

Na Catequese ouvimos a narrativa da entrada do espírito da guerra no mundo, aquando o Homem, contraditando a vontade do Criador, praticou o primeiro ato infeliz.

A partir daí, o desaforo tomou conta dos corações humanos que não mais deixaram de produzir armas mortíferas que vão dizimando vidas e vidas sem fim.

A Sagrada Escritura narra a odisseia do povo judeu que travou, em toda a sua história, guerras para atingir os seus fins e chegar à sua terra prometida. Venceu povos, perdeu batalhas e aprendeu a lutar sem tréguas durante os séculos seguintes.

Hoje, é o ruído dos aviões, as notícias tendenciosas, os diálogos e acordos frustrados, as habitações destruídas, as cidades e aldeias arrasadas, a fome, as lágrimas abundantes que correm nos rostos inocentes, os dentes raivosos mostrados a esmo, os desejos de vingança propagados por todos os modos, a morte e muitíssimas outras provas que nos fazem tremer.

As ambições e prosápias de grandes senhores pretendem segurar, nos seus dedos frágeis e vontades doentias, as rédeas da governação de toda a Humanidade, cada um, porém, procurando, sarcasticamente, fazer crer que a sua posição é a mais inteligente e de confiança.

Na incoerência ambiciosa e infame desses ditos homens – que de homens não têm nada – são obrigados a navegar todos quantos, fustigados por tal flagelo comum, ainda lutam, honestamente, por um naco de pão e paz.