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João Pacheco Matos

joaopmatos@hotmail.com

Henry Nowak

No passado dia 22 de maio, um tribunal de Southampton condenou a prisão perpétua Vickrum Digwa, um inglês, da religião Sikh (já percebem a importância da religião neste caso) pelo assassinato de Henry Nowak, também inglês, jovem de 18 anos.

O caso teve alguma atenção mediática em Portugal pelos contornos da peculiar, chamemos-lhe assim, ação da polícia: depois de esfaquear Nowak 5 vezes, Digwa chamou a polícia alegando ter sido alvo de “agressões racistas” e omitindo qualquer esfaqueamento. A polícia, ao chegar ao local, ignorou Nowak quando gemia, prostrado no chão, que tinha sido esfaqueado e que não conseguia respirar, algemando-o. Nowak viria a falecer momentos depois, sob custódia da polícia.

Este caso levanta várias questões, mais profundas do que a tentativa de se equiparar ao de George Floyd em Minneapolis no ano de 2020.

A primeira questão diz respeito ao kirpan. O kirpan é um punhal que faz parte dos 5 artigos de fé na prática religiosa dos sikhs. A lei no Reino Unido protege o direito de um sikh poder usar um punhal na rua, porque faz parte da sua crença religiosa – neste caso, Digwa tinha dois kirpan, sendo que um deles foi reconhecido pelo tribunal como um “large Sikh dagger”.

Ora, numa democracia livre que se regula pela lei – como o Reino Unido – os direitos e os deveres são aplicados às pessoas, a todas as pessoas e a cada uma delas de igual forma. Não há direitos ou deveres específicos para uma comunidade, para culturas específicas, para os praticantes duma religião. Um conjunto de indivíduos, por serem duma religião, não podem ser autorizados a andar em Oxford Street com um facalhão à cinta porque “é preciso respeitar o multiculturalismo”. Temos de saber o que significam as palavras e o que elas implicam.

Assumiu-se que “multiculturalismo” é tratar bem o imigrante. Errado. Multiculturalismo consiste em promover a segregação autoimposta de culturas diferentes fora do seu território de origem. É a antítese da integração de imigrantes. Há um extraordinário ensaio de Henrique Raposo, intitulado “A pátria de Camus”, publicado em 2016 no Expresso (expresso.pt/sociedade/2017-05-23-A-patria-de-Camus) sobre a diferença entre multiculturalismo e cosmopolitismo. Leia. Vale mesmo a pena.

Outra questão diz respeito ao comportamento da polícia. Será que aqueles polícias em particular são racistas contra brancos? Não acredito. A razão para aquele comportamento talvez vá mais profunda. O medo de parecer racista, pressionado pela cultura woke, levou a que as polícias inglesas tenham passado por formação obrigatória em “diversidade e antirracismo”. A pressão desse medo talvez tenha passado uma fronteira indesejável. A polícia foi treinada para dar tanto peso a uma acusação de racismo, que se sobrepõe àquilo que os seus olhos veem.

Naturalmente está a decorrer uma investigação sobre a responsabilidade de cada um dos agentes. Mas eu suspeito que eles estavam apenas a seguir o seu treino e o “ambiente” em que foram ficando inseridos.

A ação da polícia tem de ser igual para qualquer pessoa, independentemente da cor da pele, dos olhos ou do cabelo. A lei é igual perante todos. As regras do Estado não podem ser ignoradas ou adaptadas a uma determinada cultura religiosa.

O indivíduo é muito mais do que a sua comunidade ou religião. O politicamente correto e o wokismo, remete os indivíduos para a sua gaveta, para guetos, onde todos são tratados como iguais entre si, sem individualidade. Iguais dentro daquela gaveta. E impedidos de serem outra coisa.