Carta Aberta a Sua Excelência, o Senhor Presidente da República

Sem esquecer o respeito que é devido a quem ocupa a posição de V. Exa., não deve o Senhor Presidente melindrar-se porque há um português que não está de acordo com as frases com que V. Exa. criticou os outros Países Europeus por não se mostrarem disponíveis para se responsabilizarem pelo pagamento das dívidas daqueles que, como a Grécia, não respeitaram o adágio que há séculos o nosso Povo recita e que diz: “Quem gasta mais do que ganha ou tem, a pedir um dia vem”.

Isto aconteceu na Grécia mas infelizmente também em Portugal.
Mas não acha V. Exa. que, perdoar uma dívida a quem não quer trabalhar é um acto ignóbil porque, quem não quer cumprir esse dever sagrado, vive à custa dos que quotidianamente se sacrificam para viver honradamente?
Há cerca de quarenta anos colectivamente e salvo honrosas excepções, fomos tomados por uma espécie de delírio, e este Povo pobre mas honrado, de repente passou a levar vida de rico ocioso e assim se cumpriu o velho adágio, começando a pedir aos que têm, porque trabalham e sabem administrar!

Há dezenas de anos que a nossa dívida pública não pára de aumentar, culminando no descalabro do anterior Governo que excedeu, em má ética administrativa, o pior que seria possível imaginar!
Causa ou consequência criou-se uma autêntica anarquia moral e financeira que atingiu o Governo Central, as Câmaras e até as Juntas de Freguesia que, numa caça desenfreada ao voto, fazem despesas que nada têm a ver com a sua missão política que deve ser equacionada, ao ideal de servir!
Criaram-se empresas públicas que só tiveram como objectivo dar lugares chorudamente remunerados e ainda para cúmulo a incompetentes que “não sabem nada de nada” e cujo valimento é uma filiação no Partido e, depois, dizer Ámem e bater palmas onde for conveniente!

A maior parte dos Gestores Públicos para além dos seus fartos ordenados, fizeram contratos e negociatas que são do domínio geral e envergonham a nossa dignidade colectiva pela indiferença com que ofenderam os princípios da honra que são as bases de qualquer sociedade moderna.

Os transportes, sobretudo ferroviários, provocaram por má administração e com a passividade dos políticos os prejuízos que são hoje do domínio de todos, mas que as administrações sempre negaram e continuam a negar, para esconderem as suas regalias e dos seus servidores, sem terem em atenção que com esta actuação sobrecarregavam as Empresas, cuja factura é apresentada a todos nós!

Há linhas Ferroviárias que, pelo seu diminuto movimento, há muito deveriam ter acabado, como se fez em toda a Europa e só não se fez em Portugal para não perder um voto e manter as negociatas que todos conhecemos ou satisfazer a má formação de alguns que não se importam de regar a calçada com a água que pertencia aos que estão a morrer de sede!
Os concursos públicos transformaram-se numa autêntica farsa com acordos prévios que definiam quem vai ganhar e quanto recebem os “colaborantes” ou ainda, quem ganha este e quem ganhará o próximo.

E todos sabemos que foram arrematadas obras por preços que, na sua execução e com colaborações diversas, vieram a ter custos finais muitas vezes superiores aos que foram acordados!

Enfim, neste sector importantíssimo da vida colectiva, tem reinado o despudor que parece ter atingido o cerne da Sociedade Portuguesa.
E agora, os que mais culpas tiveram, porque mais tempo governaram, com um descaramento inaudito, já vão afirmando que os seus estão ilibados e atrevem-se a colocar na sua situação quem nenhuma culpa teve, porque só há quatro meses é responsável pela Governação.

E V. Exa. que é um muito bem cotado professor de Economia e também um político com larga experiência governativa, não deveria ignorar todas estas verdades e a obrigação de denunciá-las, em tempo oportuno.
São estes factos os culpados da nossa situação e também, em maior ou menor grau, da generalizada crise da Europa porque o que é mau como as “pestes”, propaga-se como elas facilmente.

V. Exa. critica o Governo pelas medidas que vem tomando, mas uma crítica para ser construtiva, fica obrigada a apresentar uma alternativa que seja válida e viável.
É dessa alternativa que ficamos à espera como sendo obrigação de V. Exa. já que, ao longo do seu muito tempo de Governação e Presidência, não são conhecidos os cuidados que tenha tido e que se imponham, para travar esta marcha continuada para o abismo que dura há dezenas de anos!

Finalmente cumpre-me fazer um esclarecimento: quem faz estas afirmações é o decano dos industriais portugueses que nos anos oitenta foi considerado o maior industrial do país da indústria de cerâmica vermelha e fez seis fábricas sem pedir aos Governos qualquer subsídio para esses empreendimentos.
Nasci pobre e tive de abandonar o meu curso comercial para ganhar para viver, mas aos vinte anos já tinha vários negócios onde, com seriedade, sangue e suor, sempre triunfei.

Tive três filhos, cinco netos e cinco bisnetos e, ainda hoje, ultrapassados os noventa, continuo a trabalhar para poder fazer o que venho fazendo há mais de setenta anos: distribuir por quase todo o país grande parte daquilo que ganhei honradamente, tentando exemplificar o que deve fazer “Um Verdadeiro Socialista”.

Talvez por isso sem que nada tenha pedido, o Senhor Presidente Dr. Jorge Sampaio me creditou a comenda Industrial e o Senhor Ministro, Dr. António Coimbra Martins, a medalha de mérito Cultural, embora eu nunca tenha pertencido ao Grémio Socialista.

Cumprimento V. Exa. respeitosamente, convencido de que os meus reparos, para além de oportunos, são o eco do pensamento de milhões de Portugueses que como eu, vivem angustiados com a péssima situação do nosso País e temem que, as frases que V. Exa. tem proferido, fragilizem ainda mais um Governo que herdou a mais dífícil situação depois da crise Mundial de 1928, de cuja eu me recordo porque sofri intensamente as suas terríveis consequências!

E pior do que o ante referido, temem que as palavras de V. Exa. possam contribuir para agudizar um clima de confrontação Social, num tempo que devia ser de profunda meditação na procura dos melhores caminhos. Em Hora tão difícil esta deve ser, a ordem prioritária!

António Soares Almeida Roque
Comendador