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João Pacheco Matos

joaopmatos@hotmail.com

Eu gosto da polícia

Gastamos os adjetivos mais veementes em assuntos corriqueiros e ficamos sem palavras para descrever convenientemente o que se passou naquela esquadra da PSP do Rato, em Lisboa.
Depois de todos os procedimentos legais, judiciais e penais, tenho muita curiosidade em conhecer a avaliação psicológica aos agentes da PSP que violaram física e moralmente outros seres humanos (iguais a eles, mas muito mais fracos), bem como dos que filmaram, dos que partilharam e dos que viram sem nada fazer.

Sempre houve episódios de abuso de poder nas forças de segurança. E sempre há de haver, enquanto o poder for exercido por pessoas.

A reação das entidades competentes ao caso foi exemplar. A própria PSP, que investigou e denunciou o caso. O MAI que prontamente apontou o óbvio sem reservas. E ambas as instituições que frisam querer aprender com o ocorrido, única forma de prevenir que volte a acontecer.

E depois tivemos o Ventura, com aquela mensagem “os bandidos têm mais direitos do que a polícia”. Não surpreende, mas enoja.

Ventura apresenta-se como o único defensor da polícia – lato senso. Mas na verdade é apenas o defensor dos polícias maus, dos polícias violadores, dos polícias corruptos, dos polícias racistas, dos polícias do gangue da imigração ilegal no Alentejo. Porque os outros 99,9% dos polícias não se reveem nos atos daqueles por quem o Ventura berra, nem precisam que berrem por eles – porque 99,9% dos polícias são bons profissionais, boas pessoas e bons polícias.

Há, do outro lado do espectro político, da esquerda mais à esquerda, quem olhe para qualquer farda como abusadores de poder. Aqueles para quem qualquer ação de força da polícia é condenável.

Este discurso de Ventura, ao meter tudo no mesmo saco, dá força àquela esquerda. E fá-lo com o intuito de daí tirar dividendos: se a esquerda vocal ataca toda a polícia, ele apresenta-se como o protetor de todos. Para os primeiros, os polícias são todos perseguidores do cidadão e para os segundos, são perseguidos por toda a gente. Em qualquer dos casos, promove-se o eles polícias vs nós cidadãos. Em qualquer dos casos, promovem a divisão. Ambos querem confundir respeito com medo.

A polícia tem o exclusivo do uso da força do Estado. Só este facto já é razão essencial para que seja escrutinada. E quanto mais escrutinada for, mais respeitada é. E quanto mais respeitada for, mais força tem.

Defender a polícia é dar-lhes a força moral do respeito da sociedade, que justifica o uso da força física e das armas quando necessário. É eliminar os maus elementos. No dia em que a força da polícia vier só das armas e do medo, provavelmente já não estaremos em democracia.

Há duas semanas faleceu Carlos Brito. Foi um antifascista, lutador pela liberdade, preso político, torturado, viveu na clandestinidade. Nunca foi para o exílio das praias da Crimeia, como Cunhal. Militante e funcionário do PCP durante 50 anos, foi também diretor do “Avante!”. Fez parte do Comité Central durante 33 anos, foi líder parlamentar do PCP e candidato à Presidência da República. Atreveu-se a questionar o rumo do partido. Foi suspenso por 10 meses (outros foram expulsos). Após a sua morte, o PCP escreveu uma nota com 40 palavras. “A pedido de vários Órgãos de Comunicação Social…”. Não surpreende, mas enoja.

Por decisão do JB, todo o jornal deve ser escrito com o novo acordo ortográfico. Por facilidade operacional aceite por mim, também esta coluna seguirá essa regra. Não por me ter rendido.